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Vamos (re)pensar a gramática?


Sabendo da atual demanda de Avaliação para o Ensino Superior, que requer um estudante com uma formação crítica e reflexiva na Educação Básica, parto do problema das questões avaliativas que minimizam  a "capacidade de mobilização de um conjunto de recursos cognitivos (saberes, capacidades, informações etc.) para solucionar com pertinência e eficácia uma série de situações" (Perrenoud). Defendo que as questões avaliativas devem ser elaboradas com vistas à formação do estudante crítico e reflexivo, que consegue resolver situações-problema, com base nos saberes e conteúdos do currículo.


Para isso, na elaboração da avaliação, o professor deve ter, dentre outros, os seguintes questionamentos que analisaremos: Qual a concepção do sujeito que quero formar? Como propor situações-problema para que ele busque mecanismos para resolvê-las?  Também, faremos uma comparação da concepção de aluno na última avaliação da Fuvest como forma de exemplificar o tema. 

Sobre a concepção de sujeito reflexivo que pretendo formar, utilizarei comparação de dois tipos diferentes de questões, de duas formas de Avaliação:

Primeira:

1) Reescreva as frases, substituindo o verbo haver pelo verbo existir, fazendo as alterações necessárias.

Há muitas pessoas na rua > Resposta esperada: Existem muitas pessoas na rua.

Dentre tantos outros fatores que posso analisar nessa questão, destaco o seguinte: solicito que reproduza um modelo de atividade pré-estabelecido. O aluno que não entender a causa real dessa transformação não vai ter um aprendizado efetivo do conteúdo. Fazendo uma analogia com a vida real, podemos concluir que a concepção de sujeito implícita nesta questão é a daquele que obedece a um modelo pré-estabelecido sem questionamentos – segue o imperativo “reescreva” sem perguntar “Por que eu faço isso? Por que é assim?” e, portanto, não há aprendizado efetivo.


Segunda: (modelo de questão criado por mim)

1) Sabendo que o verbo haver no sentido de existir é impessoal e, portanto, deve ser conjugado na 3a. pessoa do singular, comente o que pode ser considerado como erro gramatical na oração do conceituado escritor Machado de Assis: “Ali haviam vários deputados que conversavam de política” (Mulher de preto).

b) Como a oração ficaria adequada segundo a norma gramatical expressa acima?

c) Machado de Assis cometeu um desvio à regra, instaurando um questionamento sobre os usos das regras gramaticais. Encontre dois argumentos para posicionar-se contra ou a favor do autor no uso gramatical.

2) Observe as seguintes orações: Há muitas pessoas na rua > Existem muitas pessoas na rua. 

a)  Que mudança pode ser observada nos verbos?

b)  Por que ocorreu a mudança com a troca dos verbos? Justifique com base na transitividade verbal e função dos termos nas orações.


Nos exemplos de questões acima, o estudante é desafiado identificar o erro, segundo as regras gramaticais, mobilizar conhecimentos e saberes para solucionar situações-problema, fazer uma proposta de intervenção, além das ações de corrigir, comparar, relacionar, etc. Posso concluir, então, que a concepção de estudante implícita na segunda proposição de questões é a daquele que reflete sobre as manifestações da língua.

A transformação e o modo de elaboração dos exercícios da segunda proposição refletem a evolução ocorrida nas avaliações institucionais como ENEM, Fuvest e IDEB, entre outras.

Exemplo: Questão 25 – Fuvest 2015

Tornando da malograda espera do tigre, alcançou o capanga um casal de velhinhos, que seguiam diante dele o mesmo caminho, e conversavam acerca de seus negócios particulares. Das poucas palavras que apanhara, percebeu João Fera que destinavam eles uns cinquenta mil-réis, tudo quanto possuíam, à compra de mantimentos, a fim de fazer um moquirão*, com que pretendiam abrir uma boa roça. Mas chegará, homem? perguntou a velha. Há de se espichar bem, mulher! Uma voz os interrompeu: Por este preço dou eu conta da roça! Ah! É nhô João! Conheciam os velhinhos o capanga, a quem tinham por homem de palavra, e de fazer o que prometia. Aceitaram sem mais hesitação; e foram mostrar o lugar que estava destinado para o roçado. Acompanhou-os João Fera; porém, mal seus olhos descobriram entre os utensílios a enxada, a qual ele esquecera um momento no afã de ganhar a soma precisa, que sem mais deu costas ao par de velhinhos e foi-se deixando-os embasbacados. (José de Alencar, Til. * )

moquirão = mutirão (mobilização coletiva para auxílio mútuo, de caráter gratuito)

Considere os seguintes comentários sobre diferentes elementos linguísticos presentes no texto:
I.              Em “alcançou o capanga um casal de velhinhos” (L. 1-2), o contexto permite identificar qual é o sujeito, mesmo este estando posposto.
II.            O verbo sublinhado no trecho “que seguiam diante dele o mesmo caminho” (L. 2-3) poderia estar no singular sem prejuízo para a correção gramatical.
III.          No trecho “que destinavam eles uns cinquenta mil-réis” (L. 5), pode-se apontar um uso informal do pronome pessoal reto “eles”, como na frase “Você tem visto eles por aí?”.
Está correto o que se afirma em
a) I, apenas.
b) II, apenas.
c) III, apenas.
d) I e II, apenas.
e) I, II e III. 

Na questão acima, observamos a necessidade de mobilização de diferentes saberes gramaticais, juntamente com a análise da manifestação linguística textual literária, o que exige posicionamento interpretativo da gramática, bem como entendimento da situação discursiva do texto. 



Escrito por Marilisa Cardoso Bernardi