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Viagens na minha terra: o romance dentro do romance





"A vida compõe-se de alegrias e tristezas... O verde é triste e alegre, como as felicidades da vida! Joaninha, Joaninha, por que tens tu os olhos verdes?" 
Almeida Garrett. 
Surge o romance entre Carlos e Joaninha que muito tem a nos falar.








13 de setembro de 2013

E continua a saga... Agora começo a falar de Carlos, outro "filho" de Francisca. Criado com Joaninha, a menina dos rouxinóis.

Passara, porém, do seu meio o memorável ano de 1830, e Carlos, que se formara no princípio daquele verão, tinha ficado por Coimbra e por Lisboa, e só por fins de agosto voltara para a sua família. E veio triste, melancólico, pensativo, inteiramente outro do que sempre fora, porque era de gênio alegre e naturalmente amigo de folgar, o mancebo. (p. 104)

Carlos não aceitava aquele estilo de vida. Não aceitava ser sustentado pela riqueza de Dinis e resolve seguir para Inglaterra. Todos ficam tristes. D. Francisca fica muito triste, chora muito (como chora aquela velha) e acaba por perder a visão. Fica cega.

Paira ainda o mistério que envolve os segredos entre frei Diniz e Francisca, sempre retomados pelo autor.

O encontro de Carlos e Joaninha


Carlos volta a Santarém depois de dois anos na Inglaterra por conta da guerra civil que acontecia em Portugal. É muito emocionante o encontro de Carlos e Joaninha no vale. O autor cria um cenário romântico. Deixa que a donzela durma e, como em contos de fadas, acorde e encontre seu príncipe (Será que é mesmo um príncipe?). Agora não é mais a menina que Carlos deixara há dois anos. Do encontro, a bela e célebre descrição do beijo:

E caiu nos braços dela; e abraçaram-se num longo, longo abraço - com um longo, interminável beijo... longo, longo e interminável beijo de amantes... (p. 125)

Percebo na leitura que os dois são como filhos de uma mãe velha, que nada consegue fazer. Francisca, simbolicamente, representa Portugal. Seus filhos são criados como irmãos, mas não são irmãos, são primos, demonstrando a união e a separação do próprio povo português em guerra. 

Como esses que, fiados em sua inocência e abnegação, cuidam poder passar por entre as discórdias civis sem tomar parte nela, e que são, por isso mesmo, objeto de todas as desconfianças, alvo de todos os tiros, assim estavam ali os dois primos na mais arriscada e falsa posição que têm as revoluções. (p.128).

Essa passagem retrata o quadro histórico de Portugal à época. Representa uma união que não podia acontecer de fato, era proibida, pois ele é casado com outra mulher, a Georgina. Mulher que conheceu na Inglaterra. Veja: Joaninha e Carlos são amantes.

- (...) Tu não me amas, Carlos.
[...]
- Sei; amas outra mulher, outra mulher que te ama, que tu não podes, que tu não deves abandonar, e que eu... (p. 152)

Muito se fala dos olhos verdes de Joaninha, como na primeira citação deste post. O poeta, como diz o autor, compara os olhos verdes de Joaninha ao verde da natureza. Há uma página inteira dedicada a eles. Sim, o verde, mesmo significado da esperança. Esperança também para Portugal que agora se vê em plena revolução, em decadência, como acentuam as descrições do autor desde o início da obra.

Saibamos um pouco mais sobre a revolução 


O contexto histórico era a Revolução Liberal. Nesta época havia uma disputa político-ideológica entre o Conservadores (Absolutistas) e os Liberais (Constitucionais) que foi antecedida por uma grande crise (invasões francesas napoleônicas e criso no colonialismo no Brasil, o qual fora elevado a condição de Reino Unido a Portugal após a vinda da Família Real). 


A situação portuguesa se agrava, e em 1830 culminou com uma Guerra Civil (pela reação Monárquica Absolutista que não aceitava as restrições ao poder régio) em que opunham-se Partido Constitucionalista (liderado pela Rainha D.ª Maria II e o Imperador D. Pedro I) e o Partido Tradicionalista (liderado por D. Miguel I), terminando com a vitoria Liberal.



Carlos, na obra, simbolicamente, representa o os liberais e o frei Dinis, os conservadores. Desde a discussão deles, citada acima, percebemos que há no desentendimento real da obra, uma simbologia política.

E agora, qual será o desfecho desta história? Isto será assunto para o nosso próximo post.