Experiência de leitura: "Viagens na minha terra"


Este artigo propõe compartilhar a experiência de leitura de Viagens na minha terra, de Almeida Garret, com vocês leitores, propondo uma interação com o texto!  A todos, boa viagem!

Comecei a ler com pouco entusiasmo o romance de Garrett, mas logo estava envolvida no relato deste grande autor. Faço a releitura, como citou Calvino, com a simples necessidade de ler para analisar e me aprofundar no famoso feito de Garrett, a obra do Romantismo Português "Viagens na minha terra". Aproveite para ler também acessando a obras no link do Domínio público!

E o que encontro? 

Um romance multifacetado, pois traz romance, crônica, relato; realidade e ficção; geografia, deslocamentos físico e mental do narrador; citações, intertextualidade; digressões e muitas outras riquezas que a literatura pode nos oferecer! "Me empolguei", coloquialmente falando.

"Foi sempre ambiciosa a minha pena: pobre e soberba, quer assunto mais largo. Pois hei de dar-lho. Vou nada menos que a Santarém; e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há de fazer crônica."


Toma a decisão da viagem! A viagem real, do deslocamento que realmente aconteceu, de Lisboa para Santarém. E as "viagens", como no título, representam as reflexões do narrador que permeiam toda a pequena viagem de apenas 80 km. Vejam, uma viagem que para nós levaria uma hora, aproximadamente, para ele rendeu muitas páginas e reflexões: 

"Estas minhas interessantes viagens hão de ser uma obra-prima, erudita, brilhante de pensamentos novos, uma coisa digna do século. [...]
É um mito, porque - porque... Já agora rasgo o véu e declaro abertamente ao benévolo leitor a profunda ideia que está oculta desta ligeira aparência de uma viagenzita que parece feita a brincar..."

É profunda também a reflexão que faz acerca da obra de Cervantes, autor de D. Quixote) e a analogia ao Progresso:

"Descobriu ele (Cervantes) que há dois princípios no mundo: o espiritualista, que marcha sem atender à parte material e terrena desta vida (...) e que pode bem personalizar-se, simbolizar-se pelo famoso mito do Cavaleiro da Mancha, D. Quixote. -- o materialista, que, sem fazer caso nem cabedal dessas teorias, em que  não crê e cujas impossíveis aplicações declara todas utopias, pode bem representar-se pela rotunda e anafada presença do nosso amigo velho, Sancho Pança.
Mas como na história do malicioso Cervantes, estes dois princípios tão avessos, tão desencontrados, andam contudo juntos sempre, ora um mais atrás, ora outro mais adiante, empecendo-se muitas vezes, coadjuvando-se poucas, mas progredindo sempre."

E continua a falar sobre o progresso que propôs a discutir em sua obra:

"Ora nesta minha viagem Tejo arriba está simbolizada a marcha do nosso progresso social: espero que o leitor entendesse agora. Tomarei cuidado de lho lembrar de vez em quando, porque receio muito que se esqueça."

O obra representa também as impressões do autor sobre Portugal. As reflexões e críticas, observadas pelas descrições presentes, relacionadas também ao país em fase decadente.

"Somos chegados ao triste desembarcadouro de Vila Nova da Rainha, que é o mais feio pedaço de terra aluvial em que ainda pousei os meus pés."

A grande questão que permeia a obra pode ser: o que é que falta a Portugal? Vamos tentar respondê-la durante a leitura do livro?

Avanço em minha leitura. Não tanto quanto gostaria. Mas continuo envolvida nas crônicas de Garrett. Como era culto e viajado este escritor. Faço algumas anotações das obras e autores e poetas citados. Quero adquirir um pouco que seja da cultura que ele expressa nesta obra: Divina Comédia, Hamlet, Ilíada, Os Lusíadas... Tenho tanto a ler e reler, enfim. Resta-me encontrar mais tempo para a leitura.

Após a primeira parada com os seus companheiros em Vila Nova da Rainha, quando terminamos o último artigo, o autor e narrador segue viagem, chegando ao pinhal de Azambuja, demonstra sua decepção:
"Este é que é o pinhal de Azambuja?
Não pode ser. 
[...] 
Isto não pode ser! Uns poucos de pinheiros raros e enfezados, através dos quais se estão quase vendo as vinhas e olivedos circunstantes!" (Garrett, p. 39 a 41)

Ele mostra sua decepção e faz suas digressões por entre as descrições "realistas" e nada românticas dos pequenos e fracos pinhais de Azambuja que encontra. Como disse, no último post, as "viagens", presentes no título, representam as jornadas mentais e sentimentais, reflexões e críticas, o pensamento livre de um conhecedor de seu tempos a reboque de uma viagem de pedaços simbólicos de um país a habitar as ruínas do que foi.

"Piquemos para o Cartaxo, que são horas. [...] Chegada a este mundo e ao Cartaxo." (p. 43-44)

     Seguem com suas mulas ao Cartaxo. Lá segue uma fértil reflexão sobre o café de Cartaxo:

"... como nós nos sentamos nas duras e ásperas tábuas das esguias banquetas mal sarapintadas, que ornam o magnífico estabelecimento bordalengo. [...] Pendem do teto laboriosamente arrendados por não vulgar tesoura os pingentes de papel, convidando a lascivo repouso a inquieta raça das moscas..." (p.52-53)

Além do percurso físico, o percurso crítico é sempre esmiuçado pelo nosso querido narrador. Vejam a que reflexões nos convida a fazer:

"No meio destas disceptações acadêmico-literárias vem o autor a descobrir que para tudo é preciso ter fé neste mundo. [...] 
O italiano tinha fé em Deus, o alemão no ceticismo, o português na sina pátria. É preciso crer em alguma coisa para ser grande - não só poeta -, grande seja no que for."

Saíram de Cartaxo e chegaram, enfim, ao Vale de Santarém. Vamos acompanhar a continuação desta história?

"Chega-se ao Vale de Santarém. "Entra-se, enfim, na prometida história. (...) Como hei de eu então, eu, que nesta grave Odisseia das minhas viagens tenho de inserir o mais interessante e misterioso episódio de amor que ainda foi contado, ou cantado".

Na chegada a Santarém, do relato do autor passa-se ao encontro com a menina dos rouxinóis... Mas quem é a menina dos rouxinóis? Quem é a menina que ele avista na janela? A menina dos olhos verdes...

"- Verdes os olhos... dela, do vulto da janela?
- Verdes como duas esmeraldas orientais, transparentes, brilhantes, sem preço.
- Quê! Pois realmente? ... É gracejo isso, ou realmente há ali uma mulher bonita, e? (...)
- É a janela dos rouxinóis. 
- Que lá estão a cantar. (...)
- A menina dos rouxinóis! Que história é essa? Pois deveras tem uma história aquela janela?"

Enfim, ele começa a história de uma velha e sua neta, Joaninha, a menina dos rouxinóis

Aprecio as descrições do autor durante a leitura da obra. Gosto da forma como ele escreve, a linguagem que usa e os caminhos que percorre na escrita. Tanto me interesso que vou em busca de novas informações sobre o livro! Quero saber sobre os aspectos que permeia a obra: História, política, biografia do autor. A obra não está solta. Faz parte de um contexto e agora que estou engajada na leitura quero saber mais. O "projeto" me cativou e agora vou em busca de mais leituras que possam me ajudar no entendimento aprofundado da obra e do romance que agora ele começa. E você, leitor, vai fazer o mesmo?

Questionamentos surgem: O que está realmente acontecendo em Portugal na época em que a obra foi escrita? Quem foi e como viveu Almeida Garrett? Qual a relação entre o Romantismo Português e a obra? Qual o contexto da obra? Quero um aprendizado significativo, que parte do interesse da leitora aqui. Essas perguntas não querem calar e como a internet nos dá a facilidade da pesquisa, vou em busca de respostas...

Encontro em Joaninha uma moça meiga e amável com a avó. Moram no campo. E quem, outrora, aparece para visitá-las? Frei Dinis.

"É frei Dinis (...) a figura seca, alta e um tanto curvada de um religiosos franciscano (...) o austero guardião de São Francisco de Santarém."

Personagem forte e marcante agora entra na história com um ar de mistério. Não sabemos certamente o que envolve este personagem. Havemos de saber durante o romance?

A velha Francisca é incapaz de fazer algo. Vejam!

"A velha queria dizer mais; as angústias que se tinham estado juntando naquela alma, que por fim não podia mais e transbordava, queriam sair todas, queria derramar-se ali em lágrimas e soluços na presença o seu Deus..."

Frei Dinis contemplou-a alguns momentos nesse estado e pareceu comover-se; mas aqueles nervos eram fios de ferro temperado que não vibravam a nenhuma suave percussão." 

Há vários mistérios e questões que o autor levanta em relação ao frade.

"Como e por que deixara ele o mundo? Como e por que, um espírito  tão ativo e superior se ocupava apenas do obscuro encargo de guardião do seu convento - cargo que aceitara por obediência -, e quase que limitava as suas relações fora do claustro àquela casa do vale, onde não se via senão aquela velha e aquela criança?"

Sigo a leitura adiante. Vi que o frade deixara sua riqueza à velha Francisca e foi ser guardião do convento, como que por obediência. Durante a leitura, observo que ele está sempre muito próximo da casa do vale.

Surge, agora, um novo personagem: Carlos: quem seria? Qual a importância dele neste romance?

"A vida compõe-se de alegrias e tristezas... O verde é triste e alegre, como as felicidades da vida! Joaninha, Joaninha, por que tens tu os olhos verdes?" 

Começa o romance entre Carlos e Joaninha...

Agora começo a falar de Carlos, outro "filho" de Francisca. Criado com Joaninha, a menina dos rouxinóis.

"Passara, porém, do seu meio o memorável ano de 1830, e Carlos, que se formara no princípio daquele verão, tinha ficado por Coimbra e por Lisboa, e só por fins de agosto voltara para a sua família. E veio triste, melancólico, pensativo, inteiramente outro do que sempre fora, porque era de gênio alegre e naturalmente amigo de folgar, o mancebo." (p. 104)

Carlos não aceitava aquele estilo de vida. Não aceitava ser sustentado pela riqueza de Dinis e resolve seguir para Inglaterra. Todos ficam tristes. D. Francisca fica muito triste, chora muito (como chora aquela velha) e acaba por perder a visão. Fica cega.

Paira ainda o mistério que envolve os segredos entre Frei Diniz e Francisca, sempre retomados pelo autor.

O encontro de Carlos e Joaninha

Carlos volta a Santarém depois de dois anos na Inglaterra, por conta da guerra civil que acontecia em Portugal. É muito emocionante o encontro de Carlos e Joaninha no vale! O autor cria um cenário romântico. Deixa que a donzela durma e, como em contos de fadas, acorde e encontre seu príncipe (Será que é mesmo um príncipe?). Agora não é mais a menina que Carlos deixara há dois anos. Do encontro, a bela e célebre descrição do beijo:

"E caiu nos braços dela; e abraçaram-se num longo, longo abraço - com um longo, interminável beijo... longo, longo e interminável beijo de amantes..." (p. 125)

Percebo na leitura que os dois são como filhos de uma mãe velha, que nada consegue fazer. Francisca, simbolicamente, representa Portugal. Seus filhos são criados como irmãos, mas não são irmãos, são primos, demonstrando a união e a separação do próprio povo português em guerra. 

"Como esses que, fiados em sua inocência e abnegação, cuidam poder passar por entre as discórdias civis sem tomar parte nela, e que são, por isso mesmo, objeto de todas as desconfianças, alvo de todos os tiros, assim estavam ali os dois primos na mais arriscada e falsa posição que têm as revoluções." (p.128).

Essa passagem retrata o quadro histórico de Portugal à época. Representa uma união que não podia acontecer de fato, era proibida, pois ele é casado com outra mulher, a Georgina. Mulher que conheceu na Inglaterra. Veja: Joaninha e Carlos são amantes!

"- (...) Tu não me amas, Carlos.
[...]
- Sei; amas outra mulher, outra mulher que te ama, que tu não podes, que tu não deves abandonar, e que eu... (p. 152)"

Muito se fala dos olhos verdes de Joaninha, como na primeira citação deste post. O poeta, como diz o autor, compara os olhos verdes de Joaninha ao verde da natureza. Há uma página inteira dedicada a eles. Sim, o verde, mesmo significado da esperança. Esperança também para Portugal que agora se vê em plena revolução, em decadência, como acentuam as descrições do autor desde o início da obra.

Saibamos um pouco mais sobre a revolução 

O contexto histórico era a Revolução Liberal. Nesta época havia uma disputa político-ideológica entre o Conservadores (Absolutistas) e os Liberais (Constitucionais) que foi antecedida por uma grande crise (invasões francesas napoleônicas e criso no colonialismo no Brasil, o qual fora elevado a condição de Reino Unido a Portugal após a vinda da Família Real). 

A situação portuguesa se agrava, e em 1830 culminou com uma Guerra Civil (pela reação Monárquica Absolutista que não aceitava as restrições ao poder régio) em que opunham-se Partido Constitucionalista (liderado pela Rainha D.ª Maria II e o Imperador D. Pedro I) e o Partido Tradicionalista (liderado por D. Miguel I), terminando com a vitoria Liberal.

Carlos, na obra, simbolicamente, representa os liberais e o Frei Dinis, os conservadores. 

Desde a discussão deles, citada acima, percebemos que há no desentendimento real da obra, uma simbologia política.


Fonte imagem: http://hgp-recursos.blogspot.com.br/2008/04/luta-entre-liberais-e-absolutistas-i.html

Vamos para o desfecho da obra? Como você acha que será o final deste romance? 


Marilisa Cardoso