Artigos de Opinião sobre Vidas Secas

Olá, estudantes,


Apresentaremos três artigos de opinião sobre Vidas Secas, um clássico literário que permanece na lista da Fuvest, escritos por alunos do terceiro ano do Ensino Médio que gentilmente cederam suas produções para postagem neste blog. A temática é sempre atual, mas foram escritos em junho de 2012. 

A seca humana

Mariana Moura

Este artigo tratará da formação do homem de acordo com o que o ambiente lhe impõe, defendendo a seguinte tese, baseada na obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos: "o homem é fruto da seca da vida".


Graciliano Ramos denuncia, nesta obra, a questão do sertanejo atingido pela seca e pelas precárias condições de vida. Logo nos primeiros capítulos do livro, vemos que a família de Fabiano é mais calada que o comum, mostrando indignação com a própria situação e falta de consciência da miséria que vivem. Calejam-se e adaptam-se a um modo de vida bárbaro e rude, pois esse é o único modo de sobrevivência para aquela família, explorada tanto pela seca, quanto pelo próprio homem,  como os "superiores" de Fabiano, o soldado amarelo e o dono das terras, que os tratam como animais.

Sendo tão mal tratado, tanto pelo pelos donos de terra, quanto pelo descaso parte do governo, o sertanejo conforma-se, como um animal, muitas vezes feroz, mas irracional, sempre sujeito a desgraças e humilhações.

Muitos planos foram feitos pela família, como trocar a cama de varas, conseguir um local para se tornarem donos e colocarem seus filhos na escola. Porém, como Fabiano mesmo disse: "Será que pessoas como eu têm direitos?" Não conseguiam trocar a cama, pois eram explorados pelo patrão; as terras que conseguiam, ou a seca destruía, ou alguém revogava; e conhecimento para quê, se trabalhavam como burros de carga?

Portanto, o homem encontra como solução de sobrevivência adaptar-se ao meio em que vive, mesmo que tenha de se conformar com o modo ignorante de ser, imposto por forçar maiores, não só da natureza, mas do próprio homem que se diz superior.

Moldando a consciência     

Ricardo Costa

O Nordeste: terra da fome, da seca, dos coronéis e dos homens bravos. Nas palavras de Euclides da Cunha: "O sertanejo é, antes de tudo, um forte". Tal afirmação é comprovada e dramatizada por Graciliano Ramos em sua obra Vidas Secas de forma profunda, abrangendo desde o cenário hostil ao seu impacto na consciência do sertanejo.

A realidade apresentada aos homens do sertão nos lembra a concepção que os homens da Grécia Antiga tinham sobre o mundo: um lugar estático, onde os seres ocupam lugares físicos e assim prosseguem no caminho da História. É o modelo metafísico de percepção. Contudo, os sertanejos não dão conta deste fato e seguem suas vidas com pequenos questionamentos sobre a ordem vigente.
     
Quando Fabiano questiona-se sobre a exploração do patrão sobre ele, julga-se incapaz de pensar e, consequentemente, contenta-se. Porém, Graciliano nos mostra que o ser, mesmo em um estado de extrema alienação, é capaz de  produzir perguntas.
    
Um importante pensador do século XIX, chamado Karl Marx, escreveu em Ideologia Alemã: "O pensamento de uma época será sempre o pensamento de uma classe dominante". Ou seja, os sertanejos são moldados e condicionados a aceitarem a realidade, parecendo inertes, contudo, não estão impedidos de criar e mudar pensamentos revolucionários em seu interior.


O ser humano em sua forma mais bruta: a animal

Paola Marcheletti

A obra literária "Vidas Secas",  escrita por Graciliano Ramos, retrata a história de uma família que parece carregar o fardo de fugir da seca. Fabiano, Sinhá Vitória e seus filhos, logo no início, precisam se alimentar do próprio papagaio para a sobrevivência naquele mórbido ambiente. Este e outros fatores conduzem a narração para a desumanização dos homens que vivem na seca do sertão.

O animal da família é uma cachorra, a Baleia. Não por acaso, ela tem o nome um mamífero aquático, que vive em plena seca. Água é vida e a Baleia tem vida, tem sentimentos, tem nome, diferentemente dos filhos de Fabiano que sequer possuem nomes ou identidades. Devido a isso, o capítulo de sua morte é o mais tocante de todo o livro, em que uma realidade muito cruel é descrita através de brilhantes comparações e metáforas. 

Uma característica marcante na obra é a narração em terceira pessoa, que se explica pela ignorância das personagens, incapazes de formular frases, como se fossem animais. Não existem diálogos longos, a não ser no capítulo "Fuga", que sugere uma mudança. Ao longo da história eles apenas urram ou fazem sons. Não conseguem expressar o que pensam, mostrando extrema dificuldade em se relacionar com outras pessoas.

Na passagem em que a família vai à festa na cidade, as discrepâncias entre eles e aqueles que são civilizados ficam escancaradas. Este fato enfatiza a desumanização dos pobres seres que vêm da seca e agem como animais acuados em meio a tantas pessoas. Por outro lado, a cachorrinha, que estava sumida, devia estar se divertindo com toda aquela gente.

Essa obra possui, portanto, um claro diferencial: toca os seres humanos por sua extrema humanidade em um ambiente desumano. Pode parecer inaceitável, mas ficou evidente que essa é uma realidade... Dolorida e seca.

As produções acima mostram três olhares diferentes sobre esta importante obra! 


Marilisa Cardoso